Por Maria Salete, Diretora Administrativa da Fenacon
A simplificação prometida pela Reforma Tributária ainda está distante da realidade prática das empresas e talvez isso não mude tão cedo.
Antes de chegarmos ao modelo definitivo, teremos uma longa transição, especialmente entre 2029 e 2032 quando as empresas conviverão simultaneamente com o atual sistema de ICMS e ISS e com o novo IBS, em proporções que mudarão gradativamente até a extinção dos tributos atuais em 2033. Esse momento não se trata apenas de mudança de siglas. Estamos diante da convivência temporária entre duas lógicas tributárias distintas. De um lado, regras construídas durante décadas para ICMS e ISS. De outro, um novo modelo de tributação sobre o consumo, com IBS e CBS calculados “por fora”, maior transparência, apuração assistida e uma nova lógica de apropriação de créditos, muito mais integrada ao documento fiscal e às formas de extinção dos débitos previstas na legislação.
Isso exigirá das empresas adaptação de processos, sistemas, controles e, principalmente, da forma como tomam decisões. É justamente nesse ponto que começo a enxergar uma das maiores oportunidades geradas pela Reforma Tributária.
A oportunidade pode estar na gestão
O novo ambiente tributário exigirá dos empresários um conhecimento cada vez mais profundo sobre seus próprios negócios. Precificação, margem de lucro, compras, fornecedores, créditos tributários, fluxo de caixa e regime tributário estarão cada vez mais conectados. Uma compra deixará de ser analisada apenas pelo menor preço e passará a ser compreendida pelos seus efeitos tributários, financeiros e comerciais. Da mesma forma, não bastará saber quanto a empresa vende. Será fundamental conhecer quanto efetivamente sobra de cada operação.
Tudo isso exigirá gestão. Neste cenário, profissionalizar a gestão deixará de ser apenas uma questão de eficiência e passará a ser também uma questão de competitividade e longevidade.
Tecnologia será necessária. Pessoas serão o diferencial.
As empresas inevitavelmente precisarão investir em tecnologia, mas existe uma questão importante: tecnologia estará disponível para todos. Concorrentes poderão contratar sistemas semelhantes, utilizar inteligência artificial, automatizar processos e acessar praticamente as mesmas ferramentas. Por isso, a tecnologia, isoladamente, dificilmente será o diferencial. A diferença estará nas pessoas. Serão elas que identificarão quais tecnologias fazem sentido para cada negócio, quais informações precisam ser produzidas e, principalmente, quais decisões deverão ser tomadas a partir dessas informações.
Tecnologia processa informações. Pessoas transformam informações em decisões.
Por isso, gestão de pessoas também ganhará importância, e não me refiro apenas aos colaboradores contratados diretamente, mas também aos parceiros que participam da gestão: contadores, advogados, profissionais de tecnologia, consultores e demais especialistas. Saber escolher quem estará ao lado da empresa poderá fazer enorme diferença na segurança das decisões, porque por trás de todo CNPJ existem pessoas.
O melhor regime tributário será aquele que fizer sentido para o seu negócio.
No campo tributário, essa profissionalização começa pela escolha segura do regime de tributação. Não será suficiente concluir que determinado regime é o melhor porque o concorrente o utiliza. Empresas do mesmo segmento podem ter margens, fornecedores, clientes, estruturas de custos e possibilidades de crédito completamente diferentes. Por isso, simulações e projeções individualizadas serão cada vez mais importantes.
Cada negócio precisará ser analisado de acordo com suas próprias características e essas particularidades podem trazer oportunidades capazes de fazer diferença na competitividade. Talvez a grande oportunidade da Reforma não esteja no tributo.
Depois de tantos anos acompanhando empresários e suas decisões, começo a refletir que uma das maiores oportunidades da Reforma Tributária talvez não esteja propriamente na possibilidade de redução de determinado imposto. Talvez esteja naquilo que ela exigirá das empresas: conhecer melhor seus números, revisar preços e margens, planejar compras, projetar fluxo de caixa, escolher melhor fornecedores e parceiros, integrar contabilidade, tributação, financeiro, comercial e tecnologia. Em outras palavras: profissionalizar a gestão.
Nesse novo ambiente, gestão deixará de ser apenas uma boa prática administrativa. Gestão será vantagem competitiva.
E o que o urubu tem a ver com a Reforma Tributária?
Hoje, durante minha caminhada, vi um urubu sobrevoando e aquela imagem me levou a uma reflexão. Poucas aves carregam uma imagem tão negativa. Para muitos, ele representa sujeira, decomposição e morte, mas existe outra maneira de observá-lo. O urubu não produz aquilo que está em decomposição. Ele encontra aquilo que outros deixaram para trás e cumpre uma função fundamental na natureza justamente ao consumir essa matéria e contribuir para a limpeza do ambiente.
Então pensei: qual é o verdadeiro valor do urubu?
Para alguns, talvez seja uma das aves menos nobres da criação porque se alimenta dos restos encontrados pelo caminho. Para outros, justamente por fazer aquilo que quase nenhuma outra ave faz, pode estar entre as mais importantes. O urubu é o mesmo. O que muda é o ponto de vista.
Talvez possamos olhar para a Reforma Tributária da mesma maneira. Podemos enxergá-la apenas como aumento de complexidade, custos, tecnologia, insegurança e risco — e esses riscos existem! Ou podemos reconhecer esses mesmos riscos e perguntar: o que precisamos mudar para que nossas empresas estejam preparadas para esse novo ambiente?
A Reforma Tributária pode expor fragilidades que já estavam dentro das empresas muito antes dela: precificação inadequada, margens desconhecidas, fluxo de caixa frágil, compras sem planejamento, ausência de indicadores, tecnologias que não conversam e decisões tomadas sem informações suficientes. Mas não foi a Reforma que as criou, necessariamente, apesar de torná-las muito mais visíveis.
E talvez esteja aqui a sua oportunidade.
Como tudo depende do ponto de vista, podemos enxergar a Reforma Tributária apenas como uma ameaça à sobrevivência das empresas menos preparadas ou como um grande desafio para profissionalizar a gestão empresarial brasileira, especialmente nas pequenas e médias empresas. Nenhuma lei fará essa transformação sozinha. Serão as pessoas. Empresários, gestores, colaboradores e parceiros que decidirem utilizar esse momento para rever processos, questionar modelos antigos e construir empresas mais profissionais.
Por isso, hoje, em minha caminhada, fiquei com esta reflexão:
A mesma Reforma Tributária que poderá representar uma enorme ameaça para empresas que permanecerem paradas poderá ser o impulso para outras darem o maior salto de profissionalização de sua história.
A Reforma será a mesma. O urubu continuará sendo o mesmo urubu. O que poderá mudar será o nosso ponto de vista — e, principalmente, aquilo que decidirmos fazer a partir dele.
Maria Salete Rodrigues Pacheco é empresária, pedagoga e contadora, sócia da Ativa Assessoria Contábil. Possui MBA em Contabilidade e Direito Consultivo, especialização em Gestão Empresarial e Contabilidade Consultiva e formação para atuação em Conselhos. Dedica-se ao estudo e à aplicação prática da Reforma Tributária, especialmente na análise de seus impactos sobre a gestão, a tributação e a estratégia das empresas. No associativismo, foi presidente da Ajorpeme e do SESCON/SC e atualmente é diretora administrativa da FENACON.

